
Nem sempre a procura de ajuda psicológica nasce da preocupação com o sofrimento da criança ou do jovem. Em determinadas dinâmicas familiares, pode servir outros propósitos.
1. Eliminar os sintomas que incomodam, sem questionar as suas causas.
A reatividade, a contestação, a imposição de limites, a descida do rendimento escolar ou os sinais de depressão podem incomodar os pais. O objetivo passa a ser fazer desaparecer os comportamentos que perturbam a dinâmica familiar, em vez de compreender o sofrimento que os origina.
2. Construir uma imagem de bons pais perante os outros.
Podem apresentar o acompanhamento psicológico como prova de que estão a fazer tudo pelos filhos, expondo o sofrimento que a situação lhes causa e colocando-se no papel de pais profundamente sacrificados. Assim, a responsabilidade pelo problema fica associada ao filho, enquanto eles se apresentam como vítimas das circunstâncias.
3. Transferir a responsabilidade para o psicólogo.
Ao colocar o filho em terapia, consideram que já fizeram a sua parte. Mas, quando o processo exige que também questionem atitudes, reconheçam comportamentos ou participem numa mudança, a disponibilidade pode desaparecer.
4. Interromper a terapia quando esta começa a produzir mudanças.
Quando o jovem começa a reconhecer o que sente, a questionar a dinâmica familiar ou a estabelecer limites, os pais podem sentir que estão a perder o controlo. Em situações mais graves, podem retirar abruptamente o filho da terapia, difamar o profissional, ameaçar com castigos ou condicionar o apoio financeiro e habitacional.
Para um jovem adulto que ainda depende economicamente dos pais, estas ameaças podem representar um poderoso instrumento de controlo.
5. Transformar o psicólogo num inimigo.
Enquanto o profissional confirma a versão dos pais, pode ser considerado competente. Quando começa a identificar contradições, a explorar a realidade emocional do filho ou a convidar a família a refletir sobre a sua participação no problema, pode passar a ser visto como uma ameaça.
Podem então procurar outro profissional, apresentar-lhe uma versão parcial dos acontecimentos ou tentar estabelecer uma aliança que impeça uma compreensão mais completa da dinâmica familiar.
E o filho fica preso num dilema doloroso: se falar honestamente sobre o que vive, pode enfrentar represálias em casa; se se calar, perde uma oportunidade de receber ajuda.
É aqui que a violência psicológica pode ganhar uma nova dimensão. A terapia, que deveria constituir um espaço de segurança, transforma-se numa fonte de medo, insegurança e desconfiança.
O jovem aprende que, quando começa a compreender-se melhor e a defender os seus limites, pode perder precisamente o apoio de que mais precisa.
Por isso, o trabalho psicológico não consiste apenas em fazer desaparecer sintomas. Exige compreender o contexto em que surgem, proteger o espaço terapêutico e avaliar cuidadosamente a dinâmica familiar.
Uma criança ou um jovem não precisa de aprender a adaptar-se melhor a uma dinâmica que o adoece. Precisa de condições para compreender o que vive, recuperar a confiança em si e desenvolver relações mais seguras.
E uma pergunta essencial permanece: os pais querem realmente que o filho fique melhor ou querem apenas que deixe de manifestar aquilo que os incomoda?
Nota: estas dinâmicas não caracterizam todos os pais que procuram apoio psicológico para os filhos, nem permitem, por si só, concluir que existe uma perturbação de personalidade narcísica. A avaliação deve considerar o contexto e os comportamentos concretos.
Ana Isabel Ferreira | Psicóloga